sexta-feira, 24 de junho de 2011

A história dos avós sob um enfoque pseudo-freudiano.

- “Quando eu tento contar as gotas de chuva, eu me perco.”
- “acontece...mesma coisa quando vou a uma festa ou mesmo ao shopping lotado, me perco, mas mesmo assim eu vou.”
- “ouvi dizer que Freud explicava isso pela infância...”
- “Nada, é por algo menos pueril...sexo.”


 A chuva caía, molhava-lhe o cabelo e fazia soltar fortes espirros. Correu para dentro daquele barracão. Estava lotado, como previa. Não era das pessoas que gostava de lugar lotado com vozes anônimas formando uma melodia única, mas decidiu mesmo assim continuar ali.
Deixou o paletó em um suporte e caminhou até a frente do palco para analisar a banda que tocava. O som da guitarra distorcida e o tempo ditado pela bateria o agradavam. Gostava de som alto, e ali o som parecia ultrapassar qualquer limite do aceitável.
O gosto pelo barulho, pelo som alto, pelas guitarras ligadas em grandes amplificadores e vozes roucas gritando próximo ao microfone, torna-se um ciclo vicioso assim como uma droga. Sem nos atermos ao prazer proporcionado, podemos dizer que quanto mais alto se ouve, menos se escuta e assim mais o som tem que ser aumentado. Simples.
Mas ele naquela noite não queria saber se o som alto lhe deixava surdo. Dirigiu-se até o bar. “Uma cerveja.” “Qual o senhor vai querer?” “Hã, qual é mais barata?” “Pra já!” Virou de volta ao palco e esperou a cerveja. “Aqui, chefia.” Abriu a lata, um pouco da espuma caiu em sua calça e seus sapatos. “Ótimo, mais um sapato pra lavar... vamos beber, pelo menos.”
 E essa cena se repetiu em uma trama que não tinha fim, com trilha sonora digna de uma festa que prometia ser de bebedeira e uma manhã cheia do suspense de uma enorme ressaca.
Passado algum tempo, mesmo já alterado ele já se imaginava voltando sozinho pra casa, batendo altos papos com sua sombra, tão bons que logo se apaixonaria e ia de boca em cima dela. Levantaria normalmente como se nada tivesse acontecido, sem dor, só com um filete de sangue saindo do nariz.
Andaria pela noite cambaleando, mas imaginando que estava dançando e cantando na chuva, igual aquele filme que havia visto há pouco. A cada dez passos iria soltar uma risada, depois um soluço, depois mais uma risada antes que tivesse que correr por ter pisado no rabo de um cachorro.
Tentaria pegar os pingos d’água igual uma criança entediada ao olhar a chuva que impede o jogo de futebol. Mas o máximo que conseguiria seria ficar bravo por não conseguir isso e resolveria parar de ficar balançando o braço igual a um boneco de Olinda.
Chegando em casa iria direto ao banheiro, tiraria a roupa, abraçaria o vaso em seguida beijando ele e ali ficaria, com todo o mundo girando, girando e girando, até cair no sono.
No ápice de seus devaneios sobre o futuro próximo, já não conseguia mais desencostar do balcão do bar. Divertia-se ao ver três bandas tocando. As três eram parecidas, mas ele nem ligava, elas eram boas. “Oi, posso me encostar ao seu lado?”
Ele riu achando que já estava ouvindo coisa, quando resolveu virar para ver o que lhe cortou o momento ébrio, olhou direto naqueles olhos escuros. Na hora firmou a língua, tentou parecer o mais sóbrio possível, endireitou o corpo e tirou forças da onde não tinha pra não falar bobagem. “Sim, pode sim”
Era uma menina não muito alta, talvez um metro e sessenta, olhos pequenos e escuros, um nariz um pouco empinado não muito grande, e um belo sorriso. E sorte, o sorriso era pra ele. Ele de início não sabia o que fazer, levou o copo até a boca, ficou com os pensamentos saindo como se tivesse gaguejando. “Tá gostando do show?”
Ele parou, ficou encarando aquele olho e aquela boca, não sabia aonde ater o olhar, o que o ajudava tendo em vista que tudo rodava um pouco já. “To, mas acho que gostaria mais de você”.
E nisso sorriu de canto, ela sorriu da mesma forma e lhe deu o braço: “Porque então não conversamos em um local mais calmo, e bem, com menos pessoas?” Ele balançou a cabeça, nem pensou que tinha que pagar a conta do bar e foi embora, inadimplente, mas feliz.
O resto, ambos conversaram muito no caminho, um ajudando o outro a se equilibrar, em uma cena romântica, mas que nunca iria se ver em uma novela ou um filme de romances melosos.
E, me adiantando por que o tempo já me consome, aos seus netos contarão que se conheceram na faculdade, entre uma aula e outra, trocando olhares no restaurante universitário lotado em um dia de chuva.

- “Entendeu Freud agora?”
-“Acho que sim...”


Guilherme Varga de Freitas Silva