quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Divindade Cotidiana

Sentou-se naqueles locais, botecos de verdade dos quais a “grã-finagem” não se ocupa. Em meio a cadeiras de plástico amarelas com o símbolo de alguma marca de cerveja qualquer, preferiu o romantismo balcão.
            Naqueles tempos sua cabeça queimava de problemas. Talvez, não que fossem problemas comuns, muitos poderiam achar problemas prosaicos, simplórios. Mas para ele, eram problemas. E dos quais o início, ele próprio deu causa.
            Só pensava que certas coisas na vida você pode escolher entre o fazer e o não fazer, mas ele se mostrou teimoso, e o fez. Simples assim. Imaginou, aprimorou pouco, digo, bem pouco, e fez. Algo talvez produto de uma impulsividade adolescente, inocente, feito no início dos tempos.
            Aliás, exatamente esse o termo para designar o que deu início ao seu problema. Assim como todo homem, em sua inocência, ele pensando ser dono de si e controlador do tempo, resolveu criar toda essa situação.
            Já sentado, olhando ao redor e sentindo uma satisfação efêmera, mas muito mais prazerosa que qualquer sensação duradoura, ou prece infantil que o seja, chamou o rapaz atrás do balcão. “Oh Geraldo, desce a melhor marca de cerveja que você tiver ai!”
            O rapaz nem se assustou daquele velho calvo com barba rala e aparência cansada, quase um mendigo, ter pedido uma cerveja chamando-o pelo nome. Tantos ali passam e o chamam, tantos rostos desconhecidos que isso era uma coisa rotineira. Homens que trazem trocados sempre gritavam “Oh Geraldo”. Estranharia se naquele lugar um engravatado chegasse. Sentasse, bebesse e arrotasse. Mas qual o problema? Tudo é possível, só a morte que foge da regra e se mostra mais complicada, com sua teimosia clássica que lhe é própria, mas isso é tema para outra história.
            “Aqui patrão, essa é boa!” Opa, logo colocou no copo, e com uma experiência de quem já foi um dia um mestre cervejeiro, alguém que até mesmo criou a própria cerveja em seus primórdios egípcios ou mesmo em anos mais antigos, deixou apenas dois dedos de espuma naquele copo americano.
            “E a espuma é para manter a temperatura”. Em um brinde ao invisível, tomou um gole e sentiu aquele amargo característico, porém delicioso invadir-lhe a goela seca e lhe acalmar os nervos.
            Ao lado, um sujeito de trinta e poucos anos, mas aparentando mais de quarenta, com um copo americano vazio em mãos, envolto naquele clima de bar, aconchegante a ponto de fazer o desconhecido um amigo de infância, O cutucou. “Veja como são as coisas, ela me largou, três filhos, TRÊS FILHOS, e ela me largou!”
            Ele, que estava ainda degustando a sua cerveja gelada, ouviu. Afinal, bar é um confessionário, é um digno consultório psicológico, do qual os segredos começam ali pela bebida e terminam pela amnésia alcoólica, e todo chato é um companheiro, amigo, parceiro. “Eu entendo Valter, mas se te consola, ela não tá feliz!”
            “Como pode dizer que ela não tá feliz?” diz o bêbado com um deboche alcoólico. “Não está! A noite antes de dormir, em suas orações, vejo o quanto se arrependeu, só não retorna a você, porque...bem, meu filho, porque você passa mais tardes aqui do que em casa, não podendo atender a campainha quando ela toca.”
            “Hã...Você é um cara legal” disse o bêbado. Ele preferiu ficar quieto contemplando as pessoas, anonimamente, vendo como o ser humano agia com seus semelhantes.
            Bebeu com certa velocidade, mas sem negligenciar a degustação da cerveja que estava na garrafa. E digo estava, porque já se acabou. Pagou algumas moedas ao rapaz atrás do balcão. Sabia que não era dado a bebida e por isso não estranhou sua leve embriaguez.
            Saiu do boteco, virou a esquina e pegou a rua quarenta e dois. Estava embriagado, mas não ao ponto de cair pelas laterais. Andando um passo logo após o outro, indo para não sei onde, decidiu, em razão da fadiga de sua idade, sentar em um degrau de alguma casa qualquer. Momento que viu um casal de namorado passando.
            “Devo agradecer a Deus por esse dia.” Disse a menina. “Mas porque, amor?” disse o garoto com certa cara de dúvida. “Oras, porque tudo isso existe, porque eu vivo, e porque posso ver o céu, o futuro, o passado e o presente, sem se preocupar com eles.”
            Ele, ao ouvir isso, caracterizando certa intromissão, levantou-se, feliz pelo comentário da menina enamorada, continuou em passos trôpegos com um sorriso divino e indescritível na face, e nisso desapareceu naquelas ruelas estreitas e retornou a onipotência.


“What if God was one of us?”

Guilherme Varga de Freitas Silva