domingo, 23 de janeiro de 2011

O Conto do Bilheteiro


            Entrou na casa a passos lentos, não queria acordar aqueles que se divertiam em seus sonhos. Passou da melhor forma para evitar ruídos, mas afundou a sola do seu sapato no carpete vermelho.
            Chegou ao quarto e a encontrou lá dormindo com uma camisola de seda branca. O tecido cobria-lhe os peitos volumosos e a barriga de tamanho pecaminoso, mas aceitável se desconsiderarmos padrões de beleza e estética.
            Ele passou sua mão pelo rosto da moça, retirou o cabelo que encobria os olhos fechados protegidos por longos cílios, foi em direção ao nariz fino e levemente empinado que estremecia com a respiração. Desceu a mão.
            Chegou ao pescoço, acariciando o com certa sutileza. Por poucos segundos parecia que ele queria que ela sentisse sua mão encostada à pele dela causando-lhe arrepios. De fato, sua respiração alterava à medida que ele percorria seu rosto, nuca e pescoço.
            Enquanto isso, no mesmo lapso de tempo, pegou a outra mão, tirando-a de seu repouso, levando esta até a mesma face antes acariciada por sua irmã...
            Mantendo a sutileza, empurrou o rosto da mulher no mesmo instante que puxava o corpo para outra direção. Parou ao ouvir um leve estalido vindo do pescoço e lembrou da sua infância, da época que vivia no sítio, da mesma facilidade que sua tia quebrava o pescoço de uma galinha.
            Com o mesmo cuidado tido para evitar qualquer ruído, tirou cuidadosamente as luvas sentindo o plástico deslizar devagar pelos seus dedos, suavemente.
            Pensou que foi o melhor método que tinha adotado. Pensou por um minuto no sangue jorrando, sentiu repulsa. Se a vítima derramasse uma gota de qualquer fluído corporal a não ser lágrimas, seu estomago embrulharia na hora e, muito provavelmente, teria rejeitado o dinheiro prometido... Mas tudo nessa vida se dá um jeito, até mesmo no caso de um assassino profissional que é sensível a sangue.
            Colocou as luvas no bolso, olhou para o relógio de pulso, olhou para a porta e foi de encontro à saída, calmo, frio. Seus pés afundaram novamente no carpete fofo e logo as marcas desapareciam para nunca mais.
            Retirou um lenço do bolso do blazer para dar a volta na maçaneta, fechou-a e partiu. Isso tudo pela porta principal da paz de consciência...
            ....
            Quando entraram o cheiro já estava forte. O cadáver parecia já estar ali a mais de um dia. Os vizinhos não notaram nada. A mulher da frente, uma velha fofoqueira de sessenta e três anos, roliça igual uma rolha de vinho e de cabelos desgrenhados, disse à vizinha do dois mil e doze que alguém morreu naquele apartamento da jovem que acabara de mudar pro prédio.
            Não, não, a velha não viu. Deus santo, e ela iria querer ver a morte de tão perto?! Logo ela que fugia da senhora do manto negro e das almas perdidas. Não, não... ela sabia pela faixa amarela que cruzava a porta do apartamento. E não falou mais nisso. Até mesmo estas senhoras mexeriqueiras respeitam a Morte, e respeitam-na para mantê-la longe, de preferência no apartamento ao lado.
            Os peritos examinaram todo o local, o carpete fofo sem marcas, a maçaneta sem impressões digitais e o silêncio presente. Alguns chamaram o autor de bastardo, outros de inteligente, mas todos não sabiam ao que se ater.
            ....
- Eu vi o noticiário. Então, você matou mesmo?
Ele deu um gole em seu café, olhou no olho de seu interlocutor
- Não é o que a tevê lhe diz?
- Sim, sim... queria confirmar, e acho que não seria adequado eu ir lá no apê dela de curioso.
- Que seja.
- Aqui está o dinheiro prometido...
- Ótimo, obrigado... A propósito, eu não lhe conheço mais, a partir desse café sofreremos amnésia. Não causado pelo café, propriamente dito, mas por este maço.
            Virou o que restava do café ainda quente. Levantou-se e nem um adeus ao homem dirigiu, assim como uma prostituta faz com seus clientes, não o conhecia mais. Caminhou em direção a porta. No estacionamento da lanchonete um homem dirigindo um carro de marca irrelevante esperava por Ele.
- Demorou um pouco...
- Precisamos ser graciosos com nossos clientes. O porco assassino fez toda uma introdução sobre a vítima e sobre suas anomalias sexuais; mas são os ônus da profissão, um dia você é um açougueiro, e no outro você é um psicólogo.
- Eu acho graça, você o chama de porco assassino, mas quem matou foi você.
- Tecnicamente...
- Não entendo ainda.
- Prefiro me considerar como outro tipo de profissional; quem mata são aqueles que me pagam. Eu não tenho nada contra a vítima, as vezes, confesso, sinto até simpatia pela pobre alma. Eu só empresto minhas mãos, os sentimentos são deles. Em relação a vítima, me considero como um bilheteiro, não sei para onde elas vão depois que faço meu encargo, se existe ou não céu e inferno, eu não decido isso, só as dou um bilhete para seus destinos finais, só.
...
            E assim meus leitores, para um final feliz, eu poderia dizer que Ele deixou cair por engano um fio de cabelo na cena do crime e que logo após filosofar sobre sua ocupação, policiais cercariam o carro que Ele estava e “acidentalmente” a arma de um deles dispararia seis vezes...
            Eu também quero esse final...Mas na realidade, não foi isso que aconteceu. Os finais previsíveis de acordo com a nossa vontade são escassos.
            Não me odeiem, por favor. Para ser um bom autor para com meus leitores deixarei a mentira do final previsto apenas, não falarei o que ocorreu de fato. Afinal, a mentira, de todas as infrações humanas é a menor e mais confortante...


Guilherme" Varga.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dialogo universitário de fim de ano #1

Três garrafas estavam sobre a pia. Três garrafas vazias, por suposto. A única garrafa que estava quase cheia era a da nossa mesa, da qual logo estaria também sem líquido algum. Naqueles dias nenhum recipiente de vidro de seiscentos mililitros estaria aberto e totalmente cheio. De certo um pouco vazio, um pouco cheio, mas isso depende do ponto de vista do observador.
Cheio, no ponto de vista do pessimista; vazio, é obvio que se tratava de um otimista. E lógico, eram três garrafas da mesma marca. Naqueles dias não poderia ser diferente, aquela marca era a preferência e, devido à uniformização da clientela, não poderíamos optar por outra empresa.
A geladeira vermelha estava coberta por alguns adesivos, alguns imãs daqueles chatos que recebemos em cada entrega em domicilio na forma de brinde. Brinde não bem recepcionado, mas que na hora do sufoco, na hora de precisamos de uma boa marmita, se faz bem útil.
            É lógico que na geladeira vermelha não estavam apenas imãs e avisos de lugares que entregam marmitas a preço cômodo. Não seria adequado falarmos que os avisos só falavam de marmitas. Tinha também a propaganda daquele restaurante com aquele prato que me enche a boca de saliva só de pensar, mas citamos, pela prática, pela utilidade eventual naqueles dias, as marmitas.
            E aquela garrafa antes quase vazia, já estava agora de fato sem liquido algum. E assim, misturava-se mais uma garrafa à grande ode universitária, uma pomposa homenagem ao ano que se encerrava.
            Por suposto não estávamos de branco. Seria ridículo dois universitários bebendo um pouco de cerveja e conversando sobre assuntos metafísicos (uma forma de revolta em relação ao método cientifico) estarem de branco somente para aquela ocasião.
            Não era final de ano de fato, mas o era de direito. O ano letivo que se acabou, as matérias que passaram, podia não ser na prática, mas de direito o ano se encerrava, acabava assim como a cerveja.
- Eu não me vejo igual ao início do ano, aliás, penso que mudei bastante e você?
- Acho que também, querendo ou não um ano é muita coisa e este... há...este acabou.
            E assim como o ano, várias coisas se acabam, mas mesmo assim não consigo crer o fim sem a prévia de um início. Até mesmo no fim do mundo, naquele apocalipse que algumas profecias da America colombiana estimam ser em 2012, eu vejo um recomeço, no fim do ano, trezentos e sessenta e cinco dias virão.
- Cadê a cerveja?
- Acabou... podíamos ter pego mais, não?
- Pois é, uma pena.
-Mas valeu.
-Concordo.
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1- Férias. Tá divertido até.
2- 2011 começou bem até.
3- e eu peguei mania de falar até...menos mal, adeus seria pior haha.
4- Ah, lembrando crianças, falta apenas um ano para dois mil e doze, aproveitem....hauhauhauhuaha (eu sou meio nostálgico, me divirto com essas previsões antigas).
5- Sem mais.

"Eu quero ligar, eu quero um lugar ao sol de Ipanema, cinema e televisão."
Guilherme" Varga