Entrou pelo portal do edifício, mexeu os lábios vermelhos em um bom dia ao porteiro, seco, mas ao mesmo tempo simpático o suficiente para manter as aparências. Vestia um vestido preto com o dragão que possuía tatuado nas costas a mostra, o rosto estava muito bem maquiado, o que realçava toda sua beleza.
Apertou o botão “subir” para chamar o elevador. Por suposto, já que do térreo não se pode ir pra lugar nenhum, exceto para a garagem, e assim como aqueles que se encontram no purgatório evitam descer ao inferno, Ela preferiu deixar o carro do lado de fora e evitar a umidade em torno dos carros dos condôminos.
Um, dois, três...vinte segundos e ainda o elevador parecia emperrado em algum andar. Provavelmente aquela senhora do quarto andar, mãe de três filhos pequenos, tentava empurrar os meninos elevador adentro. Ou talvez aquele casal do quinto andar estivesse brigando novamente, e aos gritos, xingos e choradeira segurassem o elevador para no final nenhum e nem outro ir embora de casa, acabando que os gritos tornam-se gemidos dentro do apartamento e o elevador no final desça sozinho.
Enfim chegou ao térreo, demorou um tempo até a porta abrir. Ela muito cautelosa olhou para ver se realmente o "mesmo" estava no andar, afinal, passou vinte e cinco segundos olhando para a placa que dizia “Antes de adentrar ao elevador, olhar para ver se o mesmo se encontra no andar”.
Entrou, apertou o botão da cobertura. Voltou-se para o espelho, deu uma ajeitada no decote, olhou para a maquiagem e a cara decidida, nisso a porta fecha às suas costas...
A poltrona afundava com o seu peso. Ele pensava que precisava urgente emagrecer, que nos seus áureos vinte e poucos anos não tinha aquela barriga, nem aquelas rugas, aquelas marcas, aquela cicatriz próximo ao queixo, mas também não tinha dinheiro nem seu scotch. “É, pensando bem, antes gordo, do que sem meu scotch”.
Enquanto ficava em sua reflexão misturada de nostalgia e de inveja de si mesmo, mexia com o indicador no gelo imerso no seu uísque dezoito anos. Não sabendo como, acabou parando no dia que a conheceu.
De fato, não foi nenhum conto de fadas, nem um romance antigo daqueles que se conhece ao pegar o bonde, aquela troca de olhares, aquela inocência das mãos cruzadas e de gírias estranhas. Foi um momento simples e puro. Ela ali, no balcão daquela casa noturna, Ele puxou papo, Ela deu um pouco de trela, Ele pagou bebida e no final da noite pegaram a cobertura dele como transporte e foram para o paraíso. Pelo menos Ele acreditava no plural.
E tirou o dia para beber, para se embriagar, para a santa paz de Deus.
Saiu do elevador, tocou a campainha do apartamento. A porta abriu. Ele com cara de espanto e felicidade a viu, e não acreditava. Ela lhe deu um beijo apaixonado, daqueles arrebatadores. Quando se deram conta já estavam se pegando, as mãos correndo pelos corpos e as roupas espalhada pelo chão. Ela gemia e suspirava enquanto ele a prensava na parede, até que a jogo na cama e por ali continuou o que acontecia até cair ao lado dela na cama exausto.
Ela não satisfeita subiu em cima dele, esfregava seu quadril, seus peitos no corpo dele. Ele reagindo novamente a colocou de bruço, e com todo um ritmo próprio de qualquer dança, conseguiu que ela caísse também aos seu lado, esgotada pelo paraíso, com todo o pecado dentro se si.
Passado alguns minutos, Ela com corpo nu vai até a janela, acende um cigarro e contempla a vista de toda a cidade. Daquela altura, tudo parecia tão pequeno, tudo parecia ser dele, deles, de ninguém...
- Estava com saudade de ti.
- Então somos dois, porque demorou tanto?
- É que estava pensando.
- Então somos dois, porque demorou tanto?
- É que estava pensando.
Então se arrastando de forma sensual próximo ao lábio daquele homem que ainda recuperava suas energias deitado na cama.
- Fiz algo talvez reprovável.
- Oras, meu anjo, o que poderia ser tão errado?
- Traí-te.
- Tudo bem, te perdoou, quem nunca errou.
- Não sabes o tanto que me arrependo.
- Oras, meu anjo, o que poderia ser tão errado?
- Traí-te.
- Tudo bem, te perdoou, quem nunca errou.
- Não sabes o tanto que me arrependo.
E eles passaram aquele dia e noite deitados, repetindo a cena acima escrita infinitas vezes.
No outro dia, logo de manhã, o barulho de vidro se faz ouvir. Uma multidão de curiosos faz um circulo para apreciar um dragão desnudo sobre o asfalto...
“A um morto se perdoa! A um morto se perdoa!” (“O Justo” – Nelson Rodrigues)
Guilherme Varga de Freitas Silva