quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Divindade Cotidiana

Sentou-se naqueles locais, botecos de verdade dos quais a “grã-finagem” não se ocupa. Em meio a cadeiras de plástico amarelas com o símbolo de alguma marca de cerveja qualquer, preferiu o romantismo balcão.
            Naqueles tempos sua cabeça queimava de problemas. Talvez, não que fossem problemas comuns, muitos poderiam achar problemas prosaicos, simplórios. Mas para ele, eram problemas. E dos quais o início, ele próprio deu causa.
            Só pensava que certas coisas na vida você pode escolher entre o fazer e o não fazer, mas ele se mostrou teimoso, e o fez. Simples assim. Imaginou, aprimorou pouco, digo, bem pouco, e fez. Algo talvez produto de uma impulsividade adolescente, inocente, feito no início dos tempos.
            Aliás, exatamente esse o termo para designar o que deu início ao seu problema. Assim como todo homem, em sua inocência, ele pensando ser dono de si e controlador do tempo, resolveu criar toda essa situação.
            Já sentado, olhando ao redor e sentindo uma satisfação efêmera, mas muito mais prazerosa que qualquer sensação duradoura, ou prece infantil que o seja, chamou o rapaz atrás do balcão. “Oh Geraldo, desce a melhor marca de cerveja que você tiver ai!”
            O rapaz nem se assustou daquele velho calvo com barba rala e aparência cansada, quase um mendigo, ter pedido uma cerveja chamando-o pelo nome. Tantos ali passam e o chamam, tantos rostos desconhecidos que isso era uma coisa rotineira. Homens que trazem trocados sempre gritavam “Oh Geraldo”. Estranharia se naquele lugar um engravatado chegasse. Sentasse, bebesse e arrotasse. Mas qual o problema? Tudo é possível, só a morte que foge da regra e se mostra mais complicada, com sua teimosia clássica que lhe é própria, mas isso é tema para outra história.
            “Aqui patrão, essa é boa!” Opa, logo colocou no copo, e com uma experiência de quem já foi um dia um mestre cervejeiro, alguém que até mesmo criou a própria cerveja em seus primórdios egípcios ou mesmo em anos mais antigos, deixou apenas dois dedos de espuma naquele copo americano.
            “E a espuma é para manter a temperatura”. Em um brinde ao invisível, tomou um gole e sentiu aquele amargo característico, porém delicioso invadir-lhe a goela seca e lhe acalmar os nervos.
            Ao lado, um sujeito de trinta e poucos anos, mas aparentando mais de quarenta, com um copo americano vazio em mãos, envolto naquele clima de bar, aconchegante a ponto de fazer o desconhecido um amigo de infância, O cutucou. “Veja como são as coisas, ela me largou, três filhos, TRÊS FILHOS, e ela me largou!”
            Ele, que estava ainda degustando a sua cerveja gelada, ouviu. Afinal, bar é um confessionário, é um digno consultório psicológico, do qual os segredos começam ali pela bebida e terminam pela amnésia alcoólica, e todo chato é um companheiro, amigo, parceiro. “Eu entendo Valter, mas se te consola, ela não tá feliz!”
            “Como pode dizer que ela não tá feliz?” diz o bêbado com um deboche alcoólico. “Não está! A noite antes de dormir, em suas orações, vejo o quanto se arrependeu, só não retorna a você, porque...bem, meu filho, porque você passa mais tardes aqui do que em casa, não podendo atender a campainha quando ela toca.”
            “Hã...Você é um cara legal” disse o bêbado. Ele preferiu ficar quieto contemplando as pessoas, anonimamente, vendo como o ser humano agia com seus semelhantes.
            Bebeu com certa velocidade, mas sem negligenciar a degustação da cerveja que estava na garrafa. E digo estava, porque já se acabou. Pagou algumas moedas ao rapaz atrás do balcão. Sabia que não era dado a bebida e por isso não estranhou sua leve embriaguez.
            Saiu do boteco, virou a esquina e pegou a rua quarenta e dois. Estava embriagado, mas não ao ponto de cair pelas laterais. Andando um passo logo após o outro, indo para não sei onde, decidiu, em razão da fadiga de sua idade, sentar em um degrau de alguma casa qualquer. Momento que viu um casal de namorado passando.
            “Devo agradecer a Deus por esse dia.” Disse a menina. “Mas porque, amor?” disse o garoto com certa cara de dúvida. “Oras, porque tudo isso existe, porque eu vivo, e porque posso ver o céu, o futuro, o passado e o presente, sem se preocupar com eles.”
            Ele, ao ouvir isso, caracterizando certa intromissão, levantou-se, feliz pelo comentário da menina enamorada, continuou em passos trôpegos com um sorriso divino e indescritível na face, e nisso desapareceu naquelas ruelas estreitas e retornou a onipotência.


“What if God was one of us?”

Guilherme Varga de Freitas Silva

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Tatuagem

Entrou pelo portal do edifício, mexeu os lábios vermelhos em um bom dia ao porteiro, seco, mas ao mesmo tempo simpático o suficiente para manter as aparências. Vestia um vestido preto com o dragão que possuía tatuado nas costas a mostra, o rosto estava muito bem maquiado, o que realçava toda sua beleza.
 Apertou o botão “subir” para chamar o elevador. Por suposto, já que do térreo não se pode ir pra lugar nenhum, exceto para a garagem, e assim como aqueles que se encontram no purgatório evitam descer ao inferno, Ela preferiu deixar o carro do lado de fora e evitar a umidade em torno dos carros dos condôminos.
Um, dois, três...vinte segundos e ainda o elevador parecia emperrado em algum andar. Provavelmente aquela senhora do quarto andar, mãe de três filhos pequenos, tentava empurrar os meninos elevador adentro. Ou talvez aquele casal do quinto andar estivesse brigando novamente, e aos gritos, xingos e choradeira segurassem o elevador para no final nenhum e nem outro ir embora de casa, acabando que os gritos tornam-se gemidos dentro do apartamento e o elevador no final desça sozinho.
Enfim chegou ao térreo, demorou um tempo até a porta abrir. Ela muito cautelosa olhou para ver se realmente o "mesmo" estava no andar, afinal, passou vinte e cinco segundos olhando para a placa que dizia “Antes de adentrar ao elevador, olhar para ver se o mesmo se encontra no andar”.
            Entrou, apertou o botão da cobertura. Voltou-se para o espelho, deu uma ajeitada no decote, olhou para a maquiagem e a cara decidida, nisso a porta fecha às suas costas...



            A poltrona afundava com o seu peso. Ele pensava que precisava urgente emagrecer, que nos seus áureos vinte e poucos anos não tinha aquela barriga, nem aquelas rugas, aquelas marcas, aquela cicatriz próximo ao queixo, mas também não tinha dinheiro nem seu scotch. “É, pensando bem, antes gordo, do que sem meu scotch”.
            Enquanto ficava em sua reflexão misturada de nostalgia e de inveja de si mesmo, mexia com o indicador no gelo imerso no seu uísque dezoito anos. Não sabendo como, acabou parando no dia que a conheceu.
            De fato, não foi nenhum conto de fadas, nem um romance antigo daqueles que se conhece ao pegar o bonde, aquela troca de olhares, aquela inocência das mãos cruzadas e de gírias estranhas. Foi um momento simples e puro. Ela ali, no balcão daquela casa noturna, Ele puxou papo, Ela deu um pouco de trela, Ele pagou bebida e no final da noite pegaram a cobertura dele como transporte e foram para o paraíso. Pelo menos Ele acreditava no plural.
            E tirou o dia para beber, para se embriagar, para a santa paz de Deus.

           
            Saiu do elevador, tocou a campainha do apartamento. A porta abriu. Ele com cara de espanto e felicidade a viu, e não acreditava. Ela lhe deu um beijo apaixonado, daqueles arrebatadores. Quando se deram conta já estavam se pegando, as mãos correndo pelos corpos e as roupas espalhada pelo chão. Ela gemia e suspirava enquanto ele a prensava na parede, até que a jogo na cama e por ali continuou o que acontecia até cair ao lado dela na cama exausto.
            Ela não satisfeita subiu em cima dele, esfregava seu quadril, seus peitos no corpo dele. Ele reagindo novamente a colocou de bruço, e com todo um ritmo próprio de qualquer dança, conseguiu que ela caísse também aos seu lado, esgotada pelo paraíso, com todo o pecado dentro se si.
            Passado alguns minutos, Ela com corpo nu vai até a janela, acende um cigarro e contempla a vista de toda a cidade. Daquela altura, tudo parecia tão pequeno, tudo parecia ser dele, deles, de ninguém...
- Estava com saudade de ti.
- Então somos dois, porque demorou tanto?
- É que estava pensando.
            Então se arrastando de forma sensual próximo ao lábio daquele homem que ainda recuperava suas energias deitado na cama.
- Fiz algo talvez reprovável.
- Oras, meu anjo, o que poderia ser tão errado?
- Traí-te.
- Tudo bem, te perdoou, quem nunca errou.
- Não sabes o tanto que me arrependo.
            E eles passaram aquele dia e noite deitados, repetindo a cena acima escrita infinitas vezes.

           
No outro dia, logo de manhã, o barulho de vidro se faz ouvir. Uma multidão de curiosos faz um circulo para apreciar um dragão desnudo sobre o asfalto...

“A um morto se perdoa! A um morto se perdoa!” (“O Justo” – Nelson Rodrigues)

Guilherme Varga de Freitas Silva

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A história dos avós sob um enfoque pseudo-freudiano.

- “Quando eu tento contar as gotas de chuva, eu me perco.”
- “acontece...mesma coisa quando vou a uma festa ou mesmo ao shopping lotado, me perco, mas mesmo assim eu vou.”
- “ouvi dizer que Freud explicava isso pela infância...”
- “Nada, é por algo menos pueril...sexo.”


 A chuva caía, molhava-lhe o cabelo e fazia soltar fortes espirros. Correu para dentro daquele barracão. Estava lotado, como previa. Não era das pessoas que gostava de lugar lotado com vozes anônimas formando uma melodia única, mas decidiu mesmo assim continuar ali.
Deixou o paletó em um suporte e caminhou até a frente do palco para analisar a banda que tocava. O som da guitarra distorcida e o tempo ditado pela bateria o agradavam. Gostava de som alto, e ali o som parecia ultrapassar qualquer limite do aceitável.
O gosto pelo barulho, pelo som alto, pelas guitarras ligadas em grandes amplificadores e vozes roucas gritando próximo ao microfone, torna-se um ciclo vicioso assim como uma droga. Sem nos atermos ao prazer proporcionado, podemos dizer que quanto mais alto se ouve, menos se escuta e assim mais o som tem que ser aumentado. Simples.
Mas ele naquela noite não queria saber se o som alto lhe deixava surdo. Dirigiu-se até o bar. “Uma cerveja.” “Qual o senhor vai querer?” “Hã, qual é mais barata?” “Pra já!” Virou de volta ao palco e esperou a cerveja. “Aqui, chefia.” Abriu a lata, um pouco da espuma caiu em sua calça e seus sapatos. “Ótimo, mais um sapato pra lavar... vamos beber, pelo menos.”
 E essa cena se repetiu em uma trama que não tinha fim, com trilha sonora digna de uma festa que prometia ser de bebedeira e uma manhã cheia do suspense de uma enorme ressaca.
Passado algum tempo, mesmo já alterado ele já se imaginava voltando sozinho pra casa, batendo altos papos com sua sombra, tão bons que logo se apaixonaria e ia de boca em cima dela. Levantaria normalmente como se nada tivesse acontecido, sem dor, só com um filete de sangue saindo do nariz.
Andaria pela noite cambaleando, mas imaginando que estava dançando e cantando na chuva, igual aquele filme que havia visto há pouco. A cada dez passos iria soltar uma risada, depois um soluço, depois mais uma risada antes que tivesse que correr por ter pisado no rabo de um cachorro.
Tentaria pegar os pingos d’água igual uma criança entediada ao olhar a chuva que impede o jogo de futebol. Mas o máximo que conseguiria seria ficar bravo por não conseguir isso e resolveria parar de ficar balançando o braço igual a um boneco de Olinda.
Chegando em casa iria direto ao banheiro, tiraria a roupa, abraçaria o vaso em seguida beijando ele e ali ficaria, com todo o mundo girando, girando e girando, até cair no sono.
No ápice de seus devaneios sobre o futuro próximo, já não conseguia mais desencostar do balcão do bar. Divertia-se ao ver três bandas tocando. As três eram parecidas, mas ele nem ligava, elas eram boas. “Oi, posso me encostar ao seu lado?”
Ele riu achando que já estava ouvindo coisa, quando resolveu virar para ver o que lhe cortou o momento ébrio, olhou direto naqueles olhos escuros. Na hora firmou a língua, tentou parecer o mais sóbrio possível, endireitou o corpo e tirou forças da onde não tinha pra não falar bobagem. “Sim, pode sim”
Era uma menina não muito alta, talvez um metro e sessenta, olhos pequenos e escuros, um nariz um pouco empinado não muito grande, e um belo sorriso. E sorte, o sorriso era pra ele. Ele de início não sabia o que fazer, levou o copo até a boca, ficou com os pensamentos saindo como se tivesse gaguejando. “Tá gostando do show?”
Ele parou, ficou encarando aquele olho e aquela boca, não sabia aonde ater o olhar, o que o ajudava tendo em vista que tudo rodava um pouco já. “To, mas acho que gostaria mais de você”.
E nisso sorriu de canto, ela sorriu da mesma forma e lhe deu o braço: “Porque então não conversamos em um local mais calmo, e bem, com menos pessoas?” Ele balançou a cabeça, nem pensou que tinha que pagar a conta do bar e foi embora, inadimplente, mas feliz.
O resto, ambos conversaram muito no caminho, um ajudando o outro a se equilibrar, em uma cena romântica, mas que nunca iria se ver em uma novela ou um filme de romances melosos.
E, me adiantando por que o tempo já me consome, aos seus netos contarão que se conheceram na faculdade, entre uma aula e outra, trocando olhares no restaurante universitário lotado em um dia de chuva.

- “Entendeu Freud agora?”
-“Acho que sim...”


Guilherme Varga de Freitas Silva

domingo, 23 de janeiro de 2011

O Conto do Bilheteiro


            Entrou na casa a passos lentos, não queria acordar aqueles que se divertiam em seus sonhos. Passou da melhor forma para evitar ruídos, mas afundou a sola do seu sapato no carpete vermelho.
            Chegou ao quarto e a encontrou lá dormindo com uma camisola de seda branca. O tecido cobria-lhe os peitos volumosos e a barriga de tamanho pecaminoso, mas aceitável se desconsiderarmos padrões de beleza e estética.
            Ele passou sua mão pelo rosto da moça, retirou o cabelo que encobria os olhos fechados protegidos por longos cílios, foi em direção ao nariz fino e levemente empinado que estremecia com a respiração. Desceu a mão.
            Chegou ao pescoço, acariciando o com certa sutileza. Por poucos segundos parecia que ele queria que ela sentisse sua mão encostada à pele dela causando-lhe arrepios. De fato, sua respiração alterava à medida que ele percorria seu rosto, nuca e pescoço.
            Enquanto isso, no mesmo lapso de tempo, pegou a outra mão, tirando-a de seu repouso, levando esta até a mesma face antes acariciada por sua irmã...
            Mantendo a sutileza, empurrou o rosto da mulher no mesmo instante que puxava o corpo para outra direção. Parou ao ouvir um leve estalido vindo do pescoço e lembrou da sua infância, da época que vivia no sítio, da mesma facilidade que sua tia quebrava o pescoço de uma galinha.
            Com o mesmo cuidado tido para evitar qualquer ruído, tirou cuidadosamente as luvas sentindo o plástico deslizar devagar pelos seus dedos, suavemente.
            Pensou que foi o melhor método que tinha adotado. Pensou por um minuto no sangue jorrando, sentiu repulsa. Se a vítima derramasse uma gota de qualquer fluído corporal a não ser lágrimas, seu estomago embrulharia na hora e, muito provavelmente, teria rejeitado o dinheiro prometido... Mas tudo nessa vida se dá um jeito, até mesmo no caso de um assassino profissional que é sensível a sangue.
            Colocou as luvas no bolso, olhou para o relógio de pulso, olhou para a porta e foi de encontro à saída, calmo, frio. Seus pés afundaram novamente no carpete fofo e logo as marcas desapareciam para nunca mais.
            Retirou um lenço do bolso do blazer para dar a volta na maçaneta, fechou-a e partiu. Isso tudo pela porta principal da paz de consciência...
            ....
            Quando entraram o cheiro já estava forte. O cadáver parecia já estar ali a mais de um dia. Os vizinhos não notaram nada. A mulher da frente, uma velha fofoqueira de sessenta e três anos, roliça igual uma rolha de vinho e de cabelos desgrenhados, disse à vizinha do dois mil e doze que alguém morreu naquele apartamento da jovem que acabara de mudar pro prédio.
            Não, não, a velha não viu. Deus santo, e ela iria querer ver a morte de tão perto?! Logo ela que fugia da senhora do manto negro e das almas perdidas. Não, não... ela sabia pela faixa amarela que cruzava a porta do apartamento. E não falou mais nisso. Até mesmo estas senhoras mexeriqueiras respeitam a Morte, e respeitam-na para mantê-la longe, de preferência no apartamento ao lado.
            Os peritos examinaram todo o local, o carpete fofo sem marcas, a maçaneta sem impressões digitais e o silêncio presente. Alguns chamaram o autor de bastardo, outros de inteligente, mas todos não sabiam ao que se ater.
            ....
- Eu vi o noticiário. Então, você matou mesmo?
Ele deu um gole em seu café, olhou no olho de seu interlocutor
- Não é o que a tevê lhe diz?
- Sim, sim... queria confirmar, e acho que não seria adequado eu ir lá no apê dela de curioso.
- Que seja.
- Aqui está o dinheiro prometido...
- Ótimo, obrigado... A propósito, eu não lhe conheço mais, a partir desse café sofreremos amnésia. Não causado pelo café, propriamente dito, mas por este maço.
            Virou o que restava do café ainda quente. Levantou-se e nem um adeus ao homem dirigiu, assim como uma prostituta faz com seus clientes, não o conhecia mais. Caminhou em direção a porta. No estacionamento da lanchonete um homem dirigindo um carro de marca irrelevante esperava por Ele.
- Demorou um pouco...
- Precisamos ser graciosos com nossos clientes. O porco assassino fez toda uma introdução sobre a vítima e sobre suas anomalias sexuais; mas são os ônus da profissão, um dia você é um açougueiro, e no outro você é um psicólogo.
- Eu acho graça, você o chama de porco assassino, mas quem matou foi você.
- Tecnicamente...
- Não entendo ainda.
- Prefiro me considerar como outro tipo de profissional; quem mata são aqueles que me pagam. Eu não tenho nada contra a vítima, as vezes, confesso, sinto até simpatia pela pobre alma. Eu só empresto minhas mãos, os sentimentos são deles. Em relação a vítima, me considero como um bilheteiro, não sei para onde elas vão depois que faço meu encargo, se existe ou não céu e inferno, eu não decido isso, só as dou um bilhete para seus destinos finais, só.
...
            E assim meus leitores, para um final feliz, eu poderia dizer que Ele deixou cair por engano um fio de cabelo na cena do crime e que logo após filosofar sobre sua ocupação, policiais cercariam o carro que Ele estava e “acidentalmente” a arma de um deles dispararia seis vezes...
            Eu também quero esse final...Mas na realidade, não foi isso que aconteceu. Os finais previsíveis de acordo com a nossa vontade são escassos.
            Não me odeiem, por favor. Para ser um bom autor para com meus leitores deixarei a mentira do final previsto apenas, não falarei o que ocorreu de fato. Afinal, a mentira, de todas as infrações humanas é a menor e mais confortante...


Guilherme" Varga.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dialogo universitário de fim de ano #1

Três garrafas estavam sobre a pia. Três garrafas vazias, por suposto. A única garrafa que estava quase cheia era a da nossa mesa, da qual logo estaria também sem líquido algum. Naqueles dias nenhum recipiente de vidro de seiscentos mililitros estaria aberto e totalmente cheio. De certo um pouco vazio, um pouco cheio, mas isso depende do ponto de vista do observador.
Cheio, no ponto de vista do pessimista; vazio, é obvio que se tratava de um otimista. E lógico, eram três garrafas da mesma marca. Naqueles dias não poderia ser diferente, aquela marca era a preferência e, devido à uniformização da clientela, não poderíamos optar por outra empresa.
A geladeira vermelha estava coberta por alguns adesivos, alguns imãs daqueles chatos que recebemos em cada entrega em domicilio na forma de brinde. Brinde não bem recepcionado, mas que na hora do sufoco, na hora de precisamos de uma boa marmita, se faz bem útil.
            É lógico que na geladeira vermelha não estavam apenas imãs e avisos de lugares que entregam marmitas a preço cômodo. Não seria adequado falarmos que os avisos só falavam de marmitas. Tinha também a propaganda daquele restaurante com aquele prato que me enche a boca de saliva só de pensar, mas citamos, pela prática, pela utilidade eventual naqueles dias, as marmitas.
            E aquela garrafa antes quase vazia, já estava agora de fato sem liquido algum. E assim, misturava-se mais uma garrafa à grande ode universitária, uma pomposa homenagem ao ano que se encerrava.
            Por suposto não estávamos de branco. Seria ridículo dois universitários bebendo um pouco de cerveja e conversando sobre assuntos metafísicos (uma forma de revolta em relação ao método cientifico) estarem de branco somente para aquela ocasião.
            Não era final de ano de fato, mas o era de direito. O ano letivo que se acabou, as matérias que passaram, podia não ser na prática, mas de direito o ano se encerrava, acabava assim como a cerveja.
- Eu não me vejo igual ao início do ano, aliás, penso que mudei bastante e você?
- Acho que também, querendo ou não um ano é muita coisa e este... há...este acabou.
            E assim como o ano, várias coisas se acabam, mas mesmo assim não consigo crer o fim sem a prévia de um início. Até mesmo no fim do mundo, naquele apocalipse que algumas profecias da America colombiana estimam ser em 2012, eu vejo um recomeço, no fim do ano, trezentos e sessenta e cinco dias virão.
- Cadê a cerveja?
- Acabou... podíamos ter pego mais, não?
- Pois é, uma pena.
-Mas valeu.
-Concordo.
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1- Férias. Tá divertido até.
2- 2011 começou bem até.
3- e eu peguei mania de falar até...menos mal, adeus seria pior haha.
4- Ah, lembrando crianças, falta apenas um ano para dois mil e doze, aproveitem....hauhauhauhuaha (eu sou meio nostálgico, me divirto com essas previsões antigas).
5- Sem mais.

"Eu quero ligar, eu quero um lugar ao sol de Ipanema, cinema e televisão."
Guilherme" Varga

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Geração


A água caia, as nuvens pareciam chorar de alegria, tristeza ou qualquer outro motivo... o razão é, que cientistas nunca conseguiram dizer, mas todos sabem, nuvens são emotivas. E essas lágrimas batiam no asfalto negro, formando poças dentro dos buracos, e rios próximos ao meio fio.
            A criança correndo da mãe achou aquela cena magnífica, sentindo-se uma desbravadora da vizinhança, era Colombo, era Cristovão, era civilizado, e de um pulo caiu dentro da poça de lama formada nos barrentos buracos esculpidos cuidadosamente pelas rodas dos carros e pela atenção governamental.
            A mãe aflita limpava a mão no avental, com uma cara de raiva e uma mistura de sentimento de compaixão. Riu. Ia fazer o que? Afinal, seu filho era o descobridor das profundezas urbanas, era o chefe de toda uma geração... e logo ela, fez a bandeira da nova descoberta, um avental marrom e branco, uma nova cor para uma nova antiga infância.
            Enquanto isso, ele observava o carro, a chuva caindo sobre o mesmo e o metal respondendo as batidas com um ruído peculiar, mas confortante. Logo se cansou, sentou-se em frente do computador, pensou em escrever algo, pensou em dizer algo, “ahh deixe pra lá”.
            Levantou-se, foi à cozinha, abriu uma garrafa de refrigerante, lavou um copo na pia, pôs o liquido dentro do recipiente de vidro e tomou de um gole só. Sentiu a garganta sendo cortada pelos gases próprios da bebida, sorriu de leve, mas logo sentiu  preguiça ao olhar a pia.
            Uma arte abstrata, digna de Marcel Duchamp, desenhava-se ali, pratos com talheres dentro de copos com manchas de gorduras e algumas cores enquanto uma bomba de chimarrão se apresentava imponente como um arranha-céu a caminho da torneira, e esta, uma simples válvula mostrava-se a mais elevada das criaturas, a imagem da divindade dos azulejos brancos.
            Deixou o copo completando a arte moderna em seu museu particular, voltou a janela, sentiu-se entediado por aquela água caindo, por estar trancafiado atrás de uma janela, mas pensava que tudo era lindo, que tudo era maravilhoso, assim como a canção daquele poeta baiano.
            Chegou a pensar que talvez a Bahia fosse linda, mas e quando chovia? Não sabia  responder. Aliás, lembrou que nunca havia passado pela Bahia, fez disso sua meta até os trinta anos. Até lá iria aprender a tocar berimbau e lutar capoeira. Quando reparou, lá estava ele dentro de uma circunferência, indo novamente pra frente do computador, pensando em escrever algo.
            E assim se foi, no termino que nunca termina... E assim se foi, simples dessa forma, mais um dia de chuva, só isso...
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1- Prova de penal, utopia de sexta...tá longe.
2- Franca tá realmente chuvosa.
3- Dizem que a geração Y é sem dúvida a mais entediada de toda historia. Alguma voz contrária?
4- Começamos o mês bem, com postagem, tudo bonitinho, falta a freqüência...
5- Sem mais.


"Viva a Bossa, sa, sa; Viva a Palhoça, ça, ça, ça, ça..."


Guilherme" Varga

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

E assim falou Moises...

E assim falou Moises... Não, por obsequio, não entendam errado, não falo daquele Moises que dividiu mares com um cajado. Não que nosso Moises não dividisse coisas, ele conseguia dividir, subtrair, multiplicar e somar...o que já era ótimo.
            Poderes místicos ele não tinha, nada que o fizesse flutuar. Um dia conseguiu por um milésimo de segundo separar sua sopa de letrinha em dois pequenos montes com as consoantes de um lado e as vogais no centro, no seco, igual todos em um sábado a noite em uma cidade do interior.
            Diziam que ele conseguia virar um copo de vodka, mas não, como tudo que se fala, era boato. Coitado do Moises, mal viraria um copo de cerveja, até porque achava um desperdício tamanha tonteira. Diziam também que ele jogava beisebol bem e fazia milagres quando estava com o bastão em mãos só no aguardo daquela bola curva acertar-lhe em cheio a testa.
            Não recebeu os doze mandamentos, nem treze, nem onze. Simplesmente não recebeu. No máximo leu a Constituição uma vez, mas ainda sim acabou com sono em razão de tanto positivismo, de tanta dogmática, de tanto legislativo.
            Também não viu um graveto queimando, nem mesmo Deus apareceu-lhe à vista. Na realidade, eu me recordo que certa vez quando criança ele viu um graveto pegando fogo, saiu correndo achando que o mundo iria acabar, tropeçou em uma pedra e caiu de cara no chão. O resultado: doze pontos na testa.
            Mas não menosprezarei nosso herói em comparação ao Moises bíblico, essa não é minha intenção. Nosso Moises é brasileiro, gostava de ver o carnaval pela tevê juntamente com uma roda de amigo, cerveja e alguns petiscos; e além de tudo nunca vi sábio de boteco mais sagaz. E assim ele falou, como Zaratustra, igual Nietzsche:
            “Eu me esqueci o que ia falar.”
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1- Aniversário amanhã em companhia de alguns livros...aniversário no meio da semana e no final do semestre é uma mistura complicada.
2- Dizem que sou Sagitário. Fulano de tal é escorpião, Beltrano é capricórnio, João é Gêmeo e ela é virgem. É, acho estranho esses "adjetivos zódiacos".
3- Pensando bem, meu signo não é dos piores, haha
4- Chupa Unibambi!  
5- Boa noite, Franca.

"Mauro Bundinha queria fazer um som, não deu jeito ele foi ser garçom."

Guilherme" Varga.