Sentou-se ao bar como se não quisesse nada. Pediu uma dose como se nada tivesse para fazer, problema que se encerrou quando em sua mão o liquido incolor chegou. “É das boas, pode virar”. Perguntou-se qual a utilidade de virar e encerrar-se de uma vez algo que é de qualidade.
Antes de beber começou até mesmo a divagar sobre o assunto, não era homem de gostar de deleites rápidos, mesmo quando estes acabavam fazia questão de dar seqüencia aquilo que finado já estava. E gostava tanto de alongar as coisas que alongava mesmo o desgosto e tinha gosto do que fazia. Alongava tudo, até sua escrita, torta e desajustada, humana com uma mascará de comédia, uma divina comédia.
“ao santo”, jogou um pouco da pinga de lado e mandou para dentro de um gole só. O líquido passou ardente dentro de seu corpo esquentando o coração, o estomago e diria até um pouco o pulmão. Começou a pensar o porquê jogou metade do um real e cinqüenta centavos para um santo, oras essa, nem católico o era. Adormeceu a razão.
Talvez o fizesse em homenagem aquele momento de sua vida, aquele milagre que aconteceu. Olhava feliz, com um sorriso empolgante, quase infantil, para o macacão sujo de tinta, para as mãos grossas pela poeira. Sorria na simplicidade.
“Manda outra”. Já com a segunda não fez rodeios, provavelmente em razão do dono do bar não qualificá-la como das boas não teve dó, mandou para dentro e soltava alegria para fora. Pensava nos presentes que ia comprar, na felicidade do olhar de sua filha, no sorriso acolhedor de sua mulher.
Pensava também naquele carro que poderia pagar em várias prestações, naquela reforma que sua casa tanto precisava. Sentia que tudo podia, tudo construiria, dos prédios e mansões a seu próprio casebre. Não havia tempo a perder, sentiu que o santo lhe pedia mais um gole.
“Desce outro”. “Calma, rapaz...”. “Não é culpa minha, é o Santo que pede, é coisa de religião, sabe?” O dono do bar riu, aliás, ria mesmo que fosse um comentário típico de uma situação que via todos os dias. Deus salve os donos de bar que em seu labor tornam-se de psicólogos a enfermeiros, e de enfermeiros a seguranças de fim de festa.
Ele olhava as garrafas e pensou como seria legal estar em um “saloon” daqueles de velho oeste que tanto viu na tevê; Ele ganhou de seu avô certa vez em sua recente infância alguns bonecos apaches e de soldados com os quais gastava a tarde toda em batalhas épicas de índios e soldados contra pedaços de gravetos mutantes e bonecas de pano de sua irmã.
Lembrou-se de sua irmã enquanto bebia mais outra dose. Ela ficaria feliz de ver seu novo estado, seu novo emprego, seu rumo na vida. Mas a saudade lhe doeu o peito e logo uma lágrima sapeca escorreu-lhe a face.
“Faz dois anos que não vejo minha irmã. Ela ficou no sertão junto com toda minha família... é triste, mas ainda tenho Antonia em minha vida...Oh Antonia, minha mulher”. O Dono do bar ouviu tudo diligentemente balançando a cabeça igual a um psicanalista, e como função de tal aconselhou “Olha homem, melhor você retornar a sua casa, sua mulher deve estar preocupada, o tempo passa, quando sentado nessa cadeira aí, mais rápido do que quando se está na labuta... Vá homem! Segue sua mulher!” Em uma épica cena de filme, pelo menos pela visão Dele, ficou comovido pelo conselho e decidiu que iria para casa, que iria ver Antonia.
Pagou o que devia com moedas de um real e passou pela porta com o peito estufado como se estivesse a enfrentar uma aventura em uma selva distante. Achava estranho como a calçada estreitava conforme andava, mas isso, com toda certeza, era culpa do novo prefeito.
Culpado este também por ter permitido que os carros passassem tão perto dos transeuntes. “Onde já se viu?! Estou na calçada e carros a me rasparem!” Achou estranho o fato de a calçada estar mais escura, mas já havia desejado muito mal ao prefeito e não era da sua índole praguejar demais.
Tropeçou em uma pedra, em um bueiro e em um cachorro. O cachorro rosnou, a pedra também o faria se pudesse, e ele começou a rezar. Com toda força que podia rezou e o cachorro nada fez além de latir. Seu anjo da guarda era dos bons.
Ficou pensando em Antonia, na felicidade que seria tê-la nos braços novamente, envolver suas curvas entre suas mãos, beijar-lhe a boca e dizer palavras de amor. Pensou talvez que ela estaria o esperando, provavelmente preocupada, ou possivelmente brava por ele ter ido tomar uma dosinha inocente... “Mas ela há de entender, foi uma dose para a felicidade e não para a tristeza, a dose era pra ela, era por mim...”
Ele continuou andando, um passo após o outro, uma queda, uma ajeitada na roupa, uma volta à marcha... E isso demorou alguns minutos. Como mágica, o caminho do bar à sua casa se encurtara. Soltou um suspiro feliz por chegar em casa.
Abriu a porta, ligou a luz da sala, foi a caminho do quarto, encostou-se ao batente, deu uma pausa antes de iluminar o cômodo, tirou o macacão, olhou ao espelho, o estomago começou a doer, abraçou o vaso, lavou o rosto e jogou-se na cama como o mais digno trabalhador em seu sagrado momento de repouso. E de Antonia, nunca mais ouvir-se-ia falar.
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1- Final de semestre, nunca posto, só cismo de postar na correria, mas daí vem a graça...
2- Aniversário perto, é rapá, vinte anos nas costas...preferia vinte reais.
3- E não se vê nada da minha janela há não se neblina e pontos de luz, que antes chamvam postes.
4- http://vimeo.com/16641689 recomendo, assistam.
"Dormindo na estrada, no nada, no nada, e esse mundo é todo meu, mambembe, cigano..."
Guilherme" Varga.

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