Sentou-se naqueles
locais, botecos de verdade dos quais a “grã-finagem” não se ocupa. Em meio a
cadeiras de plástico amarelas com o símbolo de alguma marca de cerveja
qualquer, preferiu o romantismo balcão.
Naqueles
tempos sua cabeça queimava de problemas. Talvez, não que fossem problemas
comuns, muitos poderiam achar problemas prosaicos, simplórios. Mas para ele,
eram problemas. E dos quais o início, ele próprio deu causa.
Só
pensava que certas coisas na vida você pode escolher entre o fazer e o não
fazer, mas ele se mostrou teimoso, e o fez. Simples assim. Imaginou, aprimorou
pouco, digo, bem pouco, e fez. Algo talvez produto de uma impulsividade
adolescente, inocente, feito no início dos tempos.
Aliás,
exatamente esse o termo para designar o que deu início ao seu problema. Assim
como todo homem, em sua inocência, ele pensando ser dono de si e controlador do
tempo, resolveu criar toda essa situação.
Já
sentado, olhando ao redor e sentindo uma satisfação efêmera, mas muito mais
prazerosa que qualquer sensação duradoura, ou prece infantil que o seja, chamou
o rapaz atrás do balcão. “Oh Geraldo, desce a melhor marca de cerveja que você
tiver ai!”
O
rapaz nem se assustou daquele velho calvo com barba rala e aparência cansada,
quase um mendigo, ter pedido uma cerveja chamando-o pelo nome. Tantos ali
passam e o chamam, tantos rostos desconhecidos que isso era uma coisa
rotineira. Homens que trazem trocados sempre gritavam “Oh Geraldo”. Estranharia
se naquele lugar um engravatado chegasse. Sentasse, bebesse e arrotasse. Mas
qual o problema? Tudo é possível, só a morte que foge da regra e se mostra mais
complicada, com sua teimosia clássica que lhe é própria, mas isso é tema para
outra história.
“Aqui
patrão, essa é boa!” Opa, logo colocou no copo, e com uma experiência de quem
já foi um dia um mestre cervejeiro, alguém que até mesmo criou a própria
cerveja em seus primórdios egípcios ou mesmo em anos mais antigos, deixou
apenas dois dedos de espuma naquele copo americano.
“E
a espuma é para manter a temperatura”. Em um brinde ao invisível, tomou um gole
e sentiu aquele amargo característico, porém delicioso invadir-lhe a goela seca
e lhe acalmar os nervos.
Ao
lado, um sujeito de trinta e poucos anos, mas aparentando mais de quarenta, com
um copo americano vazio em mãos, envolto naquele clima de bar, aconchegante a
ponto de fazer o desconhecido um amigo de infância, O cutucou. “Veja como são
as coisas, ela me largou, três filhos, TRÊS FILHOS, e ela me largou!”
Ele, que estava ainda degustando a sua cerveja gelada, ouviu. Afinal, bar é um
confessionário, é um digno consultório psicológico, do qual os segredos começam
ali pela bebida e terminam pela amnésia alcoólica, e todo chato é um
companheiro, amigo, parceiro. “Eu entendo Valter, mas se te consola, ela não tá
feliz!”
“Como
pode dizer que ela não tá feliz?” diz o bêbado com um deboche alcoólico. “Não
está! A noite antes de dormir, em suas orações, vejo o quanto se arrependeu, só
não retorna a você, porque...bem, meu filho, porque você passa mais tardes aqui
do que em casa, não podendo atender a campainha quando ela toca.”
“Hã...Você
é um cara legal” disse o bêbado. Ele preferiu ficar quieto contemplando as
pessoas, anonimamente, vendo como o ser humano agia com seus semelhantes.
Bebeu
com certa velocidade, mas sem negligenciar a degustação da cerveja que estava
na garrafa. E digo estava, porque já se acabou. Pagou algumas moedas ao rapaz
atrás do balcão. Sabia que não era dado a bebida e por isso não estranhou sua
leve embriaguez.
Saiu
do boteco, virou a esquina e pegou a rua quarenta e dois. Estava embriagado,
mas não ao ponto de cair pelas laterais. Andando um passo logo após o outro,
indo para não sei onde, decidiu, em razão da fadiga de sua idade, sentar em um
degrau de alguma casa qualquer. Momento que viu um casal de namorado passando.
“Devo
agradecer a Deus por esse dia.” Disse a menina. “Mas porque, amor?” disse o
garoto com certa cara de dúvida. “Oras, porque tudo isso existe, porque eu
vivo, e porque posso ver o céu, o futuro, o passado e o presente, sem se
preocupar com eles.”
Ele,
ao ouvir isso, caracterizando certa intromissão, levantou-se, feliz pelo
comentário da menina enamorada, continuou em passos trôpegos com um sorriso
divino e indescritível na face, e nisso desapareceu naquelas ruelas estreitas e
retornou a onipotência.
“What if
God was one of us?”
Guilherme Varga de Freitas Silva
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